segunda-feira, 21 de setembro de 2009

O deserto de Deus e a ação libertadora


A poucos dias o Papa Bento XVI declarou, em entrevista a um veículo de comunicação espanhol, que a perda de fiéis da Igreja Católica se deve a má interpretação, por parte de alguns setores da Igreja, do Concílio Vaticano II. O Papa disse que certos bispos se envolveram em questões éticas e políticas e deixaram de lado os fundamentos da fé. Outro ponto destacado foi a busca do transcendente pelos homens, apesar do ‘deserto de Deus’ que caracteriza o mundo atual.
Me deparo com mais um grande retrocesso da Igreja, que volta-se para si mesma, de forma que fecha os olhos não só para as causas da desigualdade do mundo, mas para o próprio Cristo, razão de seu existir. Reflito sobre a utilização de Jesus como um aparato para angariar poder, para assegurar autoridade, o que é justamente o contrário do que o messias veio pregar. Essa apropriação de Jesus para iludir o homem e conservar o poder é uma das formas de desertificação de Deus dentro do homem.
Uma Igreja que baseia sua estrutura e suas leis no Império Romano e deixa o evangelho em segundo plano, é, como diz frei José Fernandes, uma igreja caju, onde a semente (igreja) está fora da poupa (mundo).
A preocupação com a justificativa para a perda de fiéis pretende, de uma vez só, inocentar e mascarar as práticas corporativas do Vaticano em relação as denúncias diversas contra os membros da Igreja, a falta de ações contundentes contra as guerras e massacres que ocorrem pelo mundo, e a abominável opção pelos ricos e pela alienação coletiva, além de, mais uma vez, encontrar formas de repudiar a Teologia da Libertação. A ultima encíclica do Papa, que aborda questões sociais, criminalizou o homem, e não o sistema. Bento não tem coragem de denunciar, mesmo porque a Igreja é parte desse sistema.
Reafirmo que a experiência cristã encontra seu ápice na vivência do evangelho libertador, e ação proposta por Cristo nos leva a romper com o poder imposto pelas autoridades.
A ala da Igreja que o Papa condena é aquela que defende os direitos humanos, que promove discussões sobre desenvolvimento sustentável, reformas estruturais (agrária, econômica, política), erradicação da fome e da miséria, preservação do meio ambiente (terra, água, biomas), erradicação do trabalho escravo, combate a exploração infantil, valorização dos povos tradicionais e redistribuição igualitária das riquezas do mundo.
A Igreja do Povo de Deus, que caminha com as CEB’s, com as Pastorais Sociais, com a liturgia participativa e conscientizadora, com as missões populares, com as Romarias de Terra de das Águas, que vê a organização e o enfrentamento como formas de conquista, que celebra a vida dos Mártires da caminhada, gente do povo, e sinais da proximidade de Deus para conosco. Essa é a Igreja que o Papa quer ver extinta.
Será que não é o autoritarismo, o fechamento para o mundo real, a idéia de que só o céu é o paraíso que provocam o tal deserto de Deus? Deserto é quando não construímos o ‘Reino de Deus’ aqui, entre nós e dentro de nós.
Não fechemos os olhos para nós mesmos, não podemos abrir mão do Cristo em detrimento de interesses do Vaticano, clamemos, nós excluídos, como vozes que gritam no deserto, em busca de Deus na prática libertadora.

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